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Domingo, 13 de maio de 2012 às 01:38:00

Fraude dos precatórios do TJ-RN chega ao Fantástico e envolve desembargadores

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A fraude dos precatórios no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte chegou neste domingo, 13 de maio, ao noticiário nacional com maior ênfase ao ser divulgada em reportagem especial no Fantástico, da Rede Globo, que mostrou como a então chefe da Divisão de Precatórios do TJ-RN, Carla de Paiva Ubarana Araújo Leal, e seu marido, George Luís de Araújo Leal, desviaram cerca de R$ 20 milhões desses pagamentos.

Assista o vídeo com a reportagem do Fantástico mostrando a cara de pau do casal que sente ainda orgulho por roubar. Clique aqui

A reportagem do Fantástico mostrou como Carla e o marido desviaram o dinheiro dos precatórios e suas denuncias contra os ex-presidentes do TJ, os desembargadores Osvaldo Cruz e Rafael Godeiros, que seriam também beneficiários do golpe.

Bem diferente da época da prisão e dos depoimentos, Carla Ubarana apareceu no Fantástico aparentando mais nova. Afinal, prisão domiciliar é muito melhor que a cela da prisão feminina do presídio João Chaves, na Zona Norte de Natal.

A reportagem mostrou a mansão adquirida pelo casal Carla e George na praia de Baía Formosa, a 90 km ao Sul de Natal, além de um veículo Mercedes Benz. A ex-funcionária do TJ relatou as viagens de luxo por vários países da Europa.

A chamada veiculada pela rede Globo desde sábado para destacar a reportagem dos precatórios dizia que o Fantástico ia mostrar uma “farra milionária bancada com o dinheiro do contribuinte”. 

Segundo a chamada, “um casal que participava da falcatrua conta em detalhes como era a vida de luxo que levava e acusa dois ex-presidentes do tribunal de integrar o esquema”.

A reportagem mostrou até um papel higiênico todo estampado com notas de dinheiro europeu que foi encontrado pela polícia num dos imóveis do casal.

“Foram retirados quase R$ 20 milhões. Não chega a R$ 20 milhões”, diz Carla Ubarana Leal, referindo aos desvios dos precatórios.

“Entreguei ao desembargador Osvaldo Cruz e entreguei a desembargador Rafael Godeiro”, denuncia.

O marido de Carla, o empresário George Leal, dono de uma construtora, conta que plantou 33 ipês na mansão de Baía Formosa, que foram comprados em Fortaleza (CE).

Ao Ministério Público, o empresário contou que o dinheiro desviado dos precatórios foi usado para adquirir alguns bens, principalmente imóveis, além de veículos, mas também para fazer viagens de lazer pela Europa onde se hospedavam em hotéis de luxo pagando diárias dignas de marajás.

“A Mercedes nem fui eu que comprei. Foi meu marido. Nem eu andava na Mercedes”, conta Carla, lembrando que se trata de um mesmo modelo usado como Safety Car nas corridas de Fórmula l, avaliada em cerca de R$ 650 mil.

O Fantástico divulgou a lista parcial dos bens apreendidos: seis automóveis de luxo, que juntos custam mais de R$ 1 milhão; uma mansão na praia, no valor de R$ 3 milhões; dois terrenos; duas casas; um apartamento; e dois celulares importados.

“Tinha alguns euros e alguns francos suíços que foram trocos das viagens. Acho que deu em torno de R$ 230 e R$ 250 mil. Não sei como é que ficou a conversão na época do euro e do franco suíço”, relata Carla.

Ao responder ao Ministério Público sobre gastos em viagens, George Leal respondeu: “ De cabeça, R$ 1,25 milhão. Nas últimas viagens, principalmente, os hotéis eram muito luxuosos”. E Carla completa: “Ficamos no Plaza Athenée. Como meu marido colocou muito bem no depoimento dele, em um dos cinco palácios de Paris”.

Segundo Leal, nesse hotel a diária era de R11 mil euros, já que o apartamento ficava de de frente para a torre Eiffel.

Em Média, numa única viagem, o casal larápio gastava cerca de R$ 255 mil só de hospedagem.

PRECATÓRIO

Para desviar cerca de R$ 20 milhões, o casal Ubarana fraudava o pagamento de precatório, que é a dívida da União, Estado ou Município em ações que tramitam em julgado na Justiça. As ações podem ser trabalhistas de servidores ou de indenizações referentes a desapropriações.

Segundo Carla, o modus operandi da fraude era simples. O casal tinha conhecimento do valor do precatório a ser pago pelo Estado ou Município numa ação e fazia uma espécie de compra antecipada. Como os governantes atrasam muito o pagamento desses precatórios, Carla fazia uma espécie de antecipação de pagamento oferecendo um valor menor. Se a pessoa tinha direito a receber R$ 140 mil, ela oferecia R$ 40 mil.

Como a pessoa já aguardava há muito tempo este pagamento e diante da incerteza, ela acabava aceitando a proposta dos vigaristas. Aí era só pagar R$ 40 mil e depois embolsar os R$ 140 mil, ficando com um lucro de R$ 100 mil, sem muito esfoço.

De acordo com declarações de Carla, em janeiro ela já tinha conhecimento que o Estado ia pagar um precatório a partir de junho, então era só procurar o autor da ação e oferecer um valor mais baixo em troca.

Num diário que teria escrito nos 28 dias que passou na ala feminina da Penitenciária João Chaves, na Zona Norte de Natal, Carla Ubarana, mesmo sem citar nomes, relatou que alguns juízes mandavam o mesmo precatório duas e três vezes para pagar. Segundo ela, também tinha advogado que também cobrava duas vezes o mesmo precatório e afirmava que não tinha recebido.

“Ninguém domina precatório. E eu posso lhe dizer que eu domino precatório”, conta Carla.

O dinheiro do precatório fica em uma conta da Justiça, mas cabe aos juízes autorizarem os pagamentos. Na lista no site do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, tem gente que está há quase dez anos esperando para receber.

O Fantástico mostrou o caso do dono de uma padaria, Evalker Cavalcante de Brito, que ganhou na Justiça uma ação contra a cobrança pela prefeitura de Natal de uma taxa de iluminação pública. Até agora ele aguarda o pagamento.

“E até agora, nunca me pagaram. Quando estourou essa bomba de desvio de precatórios fiquei muito revoltado, muito triste”, diz Evalker na reportagem do Fantástico.

Formada em direito, administração e economia, Carla Ubarana era funcionária de carreira no Tribunal. Ela foi para o setor de precatórios do TJ em 2007, a convite do então presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Osvaldo Cruz.

Conhecedora de precatório, Carla descobriu no setor uma forma de roubar o dinheiro dessas ações sem chamar muita atenção, a partir do momento que ele ficava parado na conta da Justiça.

 Ela cita o caso de uma verba de R$ 1,5 milhão que não conseguia identificar o processo e levou o assunto para o presidente do TJ, desembargador Osvaldo Cruz. E este perguntou: “Como o dinheiro não tem dono, o que a gente pode fazer para trabalhar o dinheiro?”.

O esquema de fraudes do precatório do TJ também utilizou de contas bancárias de “laranjas”, pessoas que tiveram seus nomes usados, para retirar o dinheiro da conta do tribunal.

Carla Ubarana relata que os pagamentos aos desembargadores eram feito em dinheiro vivo e entregue no próprio Tribunal de Justiça.

“O máximo que eu levava era R$ 60 mil, R$ 50 mil. Eram bolinhos que já vinham do banco amarrados com notas de R$ 100. Então, ele estava todo prensadinho, não fazia volume. Botava no meio dos processos e ia para a presidência, como eu sempre fui. Eu despachava com o presidente normalmente”, relata a ex-chefe do setor de Precatório.

Segundo ela, após a saída do desembargador Osvaldo Cruz da presidência do TJ, em 2009, o seu sucessor, Rafael Godeiro, também pediu para participar do esquema de fraudes.

“O que o senhor quer?”, perguntou ela. A resposta dele foi: “Eu quero a mesma saída de dinheiro de Osvaldo”.

Carla narra que ainda perguntou: “Então o senhor quer receber dinheiro do precatório, do mesmo jeito que desembargador Osvaldo recebia?”.

O que o desembargador teria respondido: “Do mesmo jeito. O mesmo valor”.

A partir daí, segundo Carla, o dinheiro passou a ser repartido por três porque o desembargador Osvaldo quis continuar recebendo a parte dele.

Os pagamentos dos precatórios são autorizados pelo presidente do TJ. Depois da denuncia da fraude, o Superior Tribunal de Justiça afastou os dois desembargadores acusados de participação de fraude. Eles negam envolvimento no esquema.

“O responsável por autorizar estes pagamentos é o presidente do Tribunal de Justiça. E, à época, eram justamente os dois desembargadores que foram afastados pelo Superior Tribunal de Justiça, Osvaldo Cruz e Rafael Godeiro”, diz o procurador-geral do estado, Luciano Ramos.

A reportagem do Fantástico mostrou ainda que “o esquema era tão audacioso que prometia transformar uma dívida judicial de R$ 30 mil em R$ 1,5 milhão”. Para isso, era só alterar os cálculos.

E cita o caso do advogado Francisco Gurgel Júnior. Ele na entrevista disse que bastava pagava propina a uma funcionária para fazer isso.

“Ela me cobrava R$ 200 mil, dos quais 20% eram dela e 80% eram do desembargador Rafael Godeiro. Ela receberia e entregaria a ele. Eu disse que não aceitaria. Primeiro, porque eu não tinha o recurso para dar, nem acreditaria que uma decisão de R$ 30 mil passasse para R$ 1,5 milhão. O nome dela era Ana Lígia”, diz o advogado em entrevista gravada pelo Fantástico.

Segundo a reportagem, Ana Lígia Cunha de Castro era assessora de Rafael Godeiro. Advogado da ex-assessora do desembargador Rafael Godeiro disse que Ana Lígia desconhece a acusação.

O casal Carla e George está em prisão domiciliar e fez acordo com o Ministério Público para receber os benefícios da delação premiada, onde os réus colaboram com o MP. Carla responde sozinha por falsificação e ocultação de documentos públicos.

Já os laranjas do esquema respondem por peculato e formação de quadrilha.

Os desembargadores afastados pelo STJ têm foro privilegiado e estão sendo investigados em liberdade pela corte.

“Nós ficamos indignados, ficamos tristes, ficamos acabrunhados, mas eu quero dizer que o Poder Judiciário e que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte estão fortalecidos, e nós não vamos nos abater por esse fato”, diz a atual presidente do TJ-RN, Judite Nunes.

A fraude no TJ começou a ser investigado Sa é ex-chefe do Setor de Precatórios do Tribunal de Justiça e acusada de liderar um esquema de desvio de dinheiro. Esse suposto esquema culminou com a deflagração da operação Judas, do Ministério Público estadual, no mês passado.

CRONOLOGIA DA INVESTIGAÇAO DA FRAUDE

O início da investigação da fraude foi em setembro de 2010, quando a presidente do TJ, desembargadora Judite Nunes, analisou processos oriundos do Setor de Precatórios e detectou a duplicação de guias de pagamento a credores e a ausência de documentos importantes em determinados processos.

Em janeiro desse ano, ela exonerou Carla de Paiva Ubarana Araújo Leal e nomeou uma Comissão de Sindicância para apurar supostas irregularidades. O desembargador do TJ, Caio Alencar, foi nomeado o presidente da Comissão.

No dia 21 de janeiro, o Ministério Público Estadual entrou na investigação. A presidenta do TJ apresentou à Procuradoria Geral de Justiça e aos promotores de Defesa do Patrimônio Público relatório preliminar dos fatos sob suspeita.

Já no dia 24 de janeiro, em nota oficial, o TJ sinalizou a dimensão da gravidade e a abrangência das fraudes cometidas no setor de  precatórios, admitindo "fortes indícios de desvio de recursos". A comissão de sindicância  sugeriu a imediata "judicialização" da investigação.

Com o auxilio de agentes da Policia Civil, o MPE desencadeou no dia 31 de janeiro a Operação Judas. Foram expedidos seis mandados de prisão, busca e apreensão pelo juiz Armando Ponte, em substituição na 5ª Vara Criminal, contra Carla de Paiva Ubarana Araújo Leal, George Luís de Araújo Leal, marido dela; Cláudia Suely  Silva de Oliveira Costa, funcionária particular de Carla e George; Carlos Eduardo Cabral Palhares de Carvalho, amigo do casal e Carlos Alberto Fasanaro Júnior, amigo do casal.

No dia 3 de fevereiro, a Justiça revogou as prisões temporárias de Cláudia Suely e Carlos Eduardo Palhares.

Já no dia 10 de fevereiro, o MPE enviou à Justiça a denúncia referente à Operação Judas, com denuncias contra Carla Ubarana e George Leal, Carlos Eduardo Palhares, Carlos Alberto Fasanaro e Cláudia Sueli Silva.

No dia 26 de fevereiro, a Comissão da Corregedoria Nacional de Justiça e técnicos do Conselho Nacional de Justiça esteve em Natal para reestruturar o funcionamento do Setor de Precatórios do TJRN.

O casal Carla Ubarana e George Leal firmaram no dia 22 de março com o MPE o acordo de "delação premiada". Em troca de revelar  detalhes do esquema de desvio de recursos, o casal teve a prisão preventiva convertida em prisão domiciliar.

No dia 30 de março, o juiz titular da 7ª Vara Criminal, Armando Ponte, começou a ouvir os acusados de participação nos desvios de recursos do TJ.  O juiz também quer ouvir nove testemunhas, sendo sete do Ministério Público e duas de defesa.

A empresa Gles Empreendimentos, de propriedade de George Leal, marido de Carla, aparece na investigação como a responsável pelas compras dos precatórios antes da data de pagamento real.

 

A vítima (o autor da ação que aguardava o pagamento do precatório) aceitava a proposta da empresa achando que se tratava de uma negociação oficial, com respaldo do TJ.

Carla Ubarana, segundo o jornal A Tribuna do Norte, admitiu ter ficado com algo em torno de 20% e 30% dos precatórios desviados. O restante foi dividido com os outros beneficiários do esquema. O casal diz ter embolsado cerca de R$ 6 milhões, enuquanto o total das fraudes chegaria entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.

Pagamento de um precatório

A partir de uma ação tramitada e julgada, a Justiça determina o pagamento de uma dívida (precatório) do poder público (municipal, estadual ou federal) em até 90 dias para causas de valores "menores", de até 40 salários mínimos no caso do Governo do Estado. Já as dívidas maiores demoram mais e os beneficiários podem levar anos para receber o precatório.

A Justiça determina que o poder público inclua no seu orçamento do ano seguinte o pagamento dessa dívida. Se a requisição chegar até o dia 30 de junho do ano corrente, o valor deve ser incluído no orçamento geral do ano seguinte.

Os precatórios acumulados em  anos anteriores entram num regime especial, com o poder público tendo um prazo de 15 anos para quitá-los. É obrigatório o deposito anual de 1% das receitas correntes líquidas no caso dos municípios e 1,5% das mesmas receitas no caso dos Estados para pagamentos de precatórios.

Com os precatórios inclusos no orçamento, o poder público deposita os valores a serem  pagos numa conta administrada pela Justiça, que fica responsável pela autorização dos pagamentos. A maioria de processos diz respeito a dívidas trabalhistas, por perdas acumuladas e descontos indevidos na folha de pagamento, além de desapropriações de imóveis.

Os pagamentos dos precatórios devem ser feitos por ordem cronológica, ou seja, os processos mais antigos precisam ser quitados primeiro. Mas também existem os casos das preferências, como as pessoas com mais de 60 anos de idade ou com doença grave.

Os precatórios que dizem respeito a salário, aposentadoria, pensão e alimentação, no geral, devem ter prioridade para pagamentos.

TEXTO DA FRAUDE NO TJ-RN NO SITE DO FÁNTÁSTICO

Fantástico mostra uma farra milionária bancada com o dinheiro do contribuinte. Dinheiro aos montes, desviado de um tribunal de justiça no Nordeste. Um casal que participava da falcatrua conta em detalhes como era a vida de luxo que levava e acusa dois ex-presidentes do tribunal de integrar o esquema. A reportagem é de Eduardo Faustini.

Você já viu um papel higiênico todo estampado com notas de dinheiro? E ainda por cima dinheiro europeu?

“Foram retirados quase R$ 20 milhões. Não chega a R$ 20 milhões”, conta Carla Ubarana Leal, funcionária do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte.

O papel higiênico foi encontrado pela polícia em um dos imóveis de Carla. Mas os R$ 20 milhões que ela menciona não foram jogados no vaso sanitário. É tudo dinheiro de verdade – dinheiro público – desviado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. E, segundo Carla, os cerca de R$ 20 milhões roubados foram divididos entre ela e dois desembargadores. “Entreguei a desembargador Osvaldo Cruz e entreguei a desembargador Rafael Godeiro”, revela.

Com a parte dela no esquema, Carla e o marido dela compraram, entre outras coisas, uma mansão na beira do mar.

“Ela tem, como diz meu marido, mais de dois mil metros só de grama”, diz Carla.

“Coloquei 33 ipês, que vieram de Fortaleza”, diz George Leal, marido de Carla.

O marido de Carla se chama George Leal. É dono de uma pequena construtora e, segundo a Justiça, montou o golpe com ela. Em depoimento ao Ministério Público do Rio Grande do Norte, ele conta como o casal foi torrando a dinheirama.

Ministério Público: O que o senhor e a sua esposa adquiriram de bens com esse dinheiro?
George Leal: Eu fiz uma pequena listagem rápida. Viajar, melhorar os carros e fazer investimentos imobiliários.

Eles falam com orgulho do que adquiriram com o dinheiro desviado.

“A piscina, na borda do terraço, tem medida oficial de piscina olímpica: tem 25 (metros) por 4 (metros), ela tem duas bordas e água aquecida”, descreve George Leal no depoimento.

“A Mercedes nem fui eu que comprei. Foi meu marido. Nem eu andava na Mercedes”, diz Carla.

O modelo que eles compraram custa R$ 650 mil.

“É aquele que faz o Safety Car da Formula 1”, diz George Leal.

E os celulares? A dupla tinha um modelo exclusivo, que já fio usado por celebridades como a cantora Madonna e o jogador de futebol David Beckham.

Ministério Público: Aparelhos celulares que se encontram apreendidos nesse processo foram comprados com os recursos desviados do tribunal?
George Leal: É 6 mil euros um, 7 mil euros outro.

Ou seja, os modelos de Carla e George custaram o equivalente a R$ 33 mil. A lista parcial dos bens apreendidos é a seguinte: seis automóveis de luxo, que juntos custam mais de R$ 1 milhão; uma mansão na praia, no valor de R$ 3 milhões; dois terrenos; duas casas; um apartamento; e dois celulares importados. A soma passa dos R$ 6 milhões. O restante ela chama de “troco”. É que a farra não aconteceu só no Rio Grande do Norte.

“Tinha alguns euros e alguns francos suíços que foram trocos das viagens. Acho que deu em torno de R$ 230 e R$ 250 mil. Não sei como é que ficou a conversão na época do euro e do franco suíço”, diz Carla.

Ministério Público: O senhor estima que gastou mais ou menos quanto, em viagens, nesse período?
George Leal: De cabeça, R$ 1,25 milhão. Nas últimas viagens, principalmente, os hotéis eram muito luxuosos.

“Ficamos no Plaza Athenée. Como meu marido colocou muito bem no depoimento dele, em um dos cinco palácios de Paris”, ressalta Carla.

George Leal: Chegamos a ficar numa diária de R11 mil euros, de frente para a torre.
Ministério Público: E passavam quantos dias lá?
George Leal: Em média, oito, nove dias.

Somando tudo, o equivalente a R$ 255 mil só de hospedagem e numa única viagem.

“Tivemos a oportunidade de ficar em uma suíte onde havia duas salas. Era champanhe”, diz Carla.

Mas como todo esse dinheiro foi desviado do tribunal? A palavra-chave é precatório. Precatório é o nome do dinheiro que o estado, o município ou uma empresa pública têm que pagar na Justiça quando perdem uma ação.

“Ninguém domina precatório. E eu posso lhe dizer que eu domino precatório”, diz Carla.

Esse dinheiro fica em uma conta da Justiça, e a fila para receber é grande. Na lista no site do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, tem gente que está há quase dez anos esperando para receber.

É o caso de Evalker Cavalcante de Brito, que é dono de uma padaria. Ele ganhou na Justiça uma ação contra a cobrança pela prefeitura de Natal de uma taxa de iluminação pública.

“E até agora, nunca me pagaram. Quando estourou essa bomba de desvio de precatórios fiquei muito revoltado, muito triste”, desabafa Evalker.

O que é difícil para Evalker era fácil para o esquema. Formada em direito, administração e economia, Carla Ubarana era funcionária de carreira no Tribunal e diz que foi convidada pelo então presidente do Tribunal de Justiça para cuidar dos precatórios.

“Fui convidada em 2007 pelo presidente, desembargador Osvaldo Cruz, para assumir um cargo na divisão de precatório”, diz Carla

Ela fez um levantamento e encontrou muito dinheiro parado, sem dono.

“Existe uma verba que eu não consegui identificar o processo. Uma verba entre R$ 1,5 milhão e R$ 1,6 milhão”, diz Carla

Carla diz que levou o caso ao então presidente do tribunal. “Desembargador Osvaldo Cruz. Ele falou: ‘Como o dinheiro não tem dono, o que a gente pode fazer para trabalhar o dinheiro?’. “O termo foi ‘trabalhar o dinheiro’”, ressalta Carla.

O esquema usou vários métodos para fazer o dinheiro sair da conta do tribunal, inclusive pagando os chamados laranjas.

O Ministério Público mostra um exemplo de uso de laranja que levou um cheque de R$ 79,5 mil. Para isso, bastou uma folha de papel assinada pelo presidente do tribunal.

“Não existe número de processo, não tem número de ofício. É um documento atípico”, avalia o promotor Flávio Pontes Filho.

“Ele assinando, era o suficiente para o banco. Eu só confirmava”, diz Carla. Segundo ela, o repasse aos desembargadores era em dinheiro vivo.

“O máximo que eu levava era R$ 60 mil, R$ 50 mil. Eram bolinhos que já vinham do banco amarrados com notas de R$ 100. Então, ele estava todo prensadinho, não fazia volume. Botava no meio dos processos e ia para a presidência, como eu sempre fui. Eu despachava com o presidente normalmente”, descreve Carla.

Carla conta que, quando o desembargador Osvaldo Cruz deixou a presidência do Tribunal de Justiça, o sucessor dele também pediu para participar da falcatrua.

“’O que o senhor quer?’ E ele respondeu: ‘Eu quero a mesma saída de dinheiro de Osvaldo’. Ela conta que perguntou: ‘Então o senhor quer receber dinheiro do precatório, do mesmo jeito que desembargador Osvaldo recebia?’. Ele disse: ‘Do mesmo jeito. O mesmo valor’. O nome do desembargador é Rafael Godeiro. ‘Está bom. Agora a gente vai ter um dinheiro que vai ser repartido por três’”.

Isso porque, segundo ela, Osvaldo quis continuar recebendo a parte dele.

“O responsável por autorizar estes pagamentos é o presidente do Tribunal de Justiça. E, à época, eram justamente os dois desembargadores que foram afastados pelo Superior Tribunal de Justiça, Osvaldo Cruz e Rafael Godeiro”, diz o procurador-geral do estado, Luciano Ramos.

O esquema era tão audacioso que prometia transformar uma dívida judicial de R$ 30 mil em R$ 1,5 milhão. Bastaria modificar os cálculos.

O advogado Francisco Gurgel Júnior diz que bastava pagava propina a uma funcionária.

“Ela me cobrava R$ 200 mil, dos quais 20% eram dela e 80% eram do desembargador Rafael Godeiro. Ela receberia e entregaria a ele. Eu disse que não aceitaria. Primeiro, porque eu não tinha o recurso para dar, nem acreditaria que uma decisão de R$ 30 mil passasse para R$ 1,5 milhão. O nome dela era Ana Lígia”, lembra o advogado.

Ana Lígia Cunha de Castro era assessora de Rafael Godeiro, um dos dois ex-presidentes do Tribunal de Justiça investigados no caso.

O advogado da ex-assessora do desembargador Rafael Godeiro, Ana Lígia, disse que desconhece a acusação.

Procurados pelo Fantástico, os desembargadores Osvaldo Cruz e Rafael Godeiro não quiseram gravar entrevista e negam a acusação.

Carla e o marido estão em prisão domiciliar. O casal e os laranjas respondem por peculato e formação de quadrilha. Ela sozinha também é acusada de falsificação e ocultação de documentos públicos. Os desembargadores estão afastados do TJ e como têm foro privilegiado, são investigados em liberdade pelo Superior Tribunal de Justiça.

“Nós ficamos indignados, ficamos tristes, ficamos acabrunhados, mas eu quero dizer que o Poder Judiciário e que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte estão fortalecidos, e nós não vamos nos abater por esse fato”, afirma Judite Nunes, presidente do TJ-RN.

“Não foi, para dizer assim, 'um foi no erro, foi no meio de vários'. Não. Foram vários. E foi durante dois anos e o outro mais dois anos. Eu digo que para cada um foram dois anos. Não foi um documento só. Não foi uma única vez”, destaca Carla.




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