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Quinta-feira, 31 de maio de 2012 às 02:54:00

Médicos denunciam mortes no Hospital Giselda Trigueiros que vive o caos

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O Fórum em Defesa da Saúde Pública, coordenado pela promotora da Saúde, Iara Pinheiro, visitou na tarde desta quinta-feira, 31, o Hospital Giselda Trigueiro, em Natal, e ouviu relatos emocionados de médicos, enfermeiros e pessoal administrativo sobre o caos que vive atualmente esta unidade hospitalar que atende pacientes com doenças infectocontagiosas. O relato mais forte foi feito pela médica Edna Palhares, que denunciou um “genocídio assistido” naquele hospital.

"O que nós vivenciamos no Giselda diariamente é um genocídio assistido, isso é crime. Eu não estudei para ver gente morrendo na minha frente por falta de assistência. Saúde é direito do povo e dever do Estado”, relatou aos integrantes do fórum, que chegaram ao hospital às 15 horas e foram embora às 19h30min.

A médica também denunciou que muitos pacientes atendidos no HGT deveriam estar sendo assistidos na rede básica. “Nós atendemos pacientes que deveriam ser recebidos na rede básica quando sequer temos condições de atender aos nossos pacientes”,  disse Edna. “Trabalhamos sem estrutura, sem o básico, muitas vezes faltam até luvas. É hora de repensar a saúde, alguma coisa tem que ser feita".

Segundo ela, o corpo médico do hospital nada pode fazer para evitar este genocídio devido aos caos que se encontra este hospital construído em 1944 para atender pacientes com tuberculose.

"A sociedade sabe que não existe uma UTI sequer para uma criança com doença infecto-contagiosa aqui no Giselda Trigueiro? A população sabe que se uma criança com catapora ou meningite precisar de uma UTI no Estado ela vai morrer sem assistência?” As indagações são da médica Iara Marques, chefe do Departamento de Infectologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que mantém convênio com o hospital.

Segundo ela, “todos os dias tem que se matar um leão para ajudar os pacientes graves” devido a falta de condições de atendimento.

“Hoje, nós acolhemos as crianças doentes e as abandonamos na enfermaria. Crianças que precisam de uma UTI ficam abandonadas à própria sorte na enfermaria. A gente acolhe, mas doente não precisa só de acolhimento, precisa de médico, de medicamento, de assistência, e falta tudo isso. A população precisa saber que pessoas estão morrendo à míngua, que morrem pacientes diariamente com doenças evitáveis, tratáveis, curáveis, como calazar, tuberculose, por falta de equipamentos, de estrutura", denunciou a chefe do Departamento de Infectologia da UFRN.

A médica da UTI do Giselda Trigueiro, Andréa Cavalcante, denunciou a falta de condições de dar diagnósticos aos pacientes de HIV positivo. Ela explica que, por exemplo, quando um paciente HIV positivo apresenta um comprometimento do pulmão,  não há como realizar exames no Giselda Trigueiro capazes de diagnosticar qual o fungo, o germe, o que está causando aquele problema pulmonar. E aí entra em cena o "exercício da adivinhação".

Segundo ela, quando um paciente HIV positivo apresenta um comprometimento do pulmão, por exemplo, não há como realizar exames no Giselda Trigueiro capazes de diagnosticar qual o fungo, o germe, o que está causando aquele problema pulmonar. “Ai  entra em cena o jogo de adivinhação", disse.

No desabafo para os integrantes do fórum, Andrea fez algumas indagações: "a sociedade sabe que esse Estado não tem um hospital para atender pacientes com Aids? A população sabe que esse Estado não tem um hospital com condições de dar diagnósticos para esses pacientes e que, quando eles apresentam comprometimento do pulmão ou cérebro, eles caem em um jogo de adivinhação?”

A médica infectologista afirmou que o HGT não tem como diagnosticar as doenças dos pacientes por falta de equipamentos e insumos. Segundo ela, aí os médicos precisam adivinhar o que está causando aquela piora. “Vamos tentando adivinhar, dando antibióticos sem a certeza de estar oferecendo o tratamento certo”, disse a médica, que veio de São Paulo.

Segundo ela, atendimentos que fazia no pronto-socorro de hospitais em São Paulo não podem ser feitos na UTI do Giselda. “O índice de mortalidade aqui é de 80%, e nós temos bons médicos, mas não fazemos diagnósticos", afirmou.

"Quantas pessoas vão morrer de doenças infectocontagiosas que têm tratamento desde o século 19 para que o sistema mude? Até quando nós vamos compactuar com a morte de pessoas por falta de assistência? A população tem que ter conhecimento da situação que nós enfrentamos aqui diariamente", disse o diretor técnico da unidade, Carlos Mosca, que está substituindo a diretora Geral, Milena Maria Costa Martins.

A promotora da Saúde, Iara Pinheiro, juntamente com outros representantes de categorias profissionais que integram o fórum, ouviram os relatos do pessoal do hospital por cerca de 3 horas. Depois, o grupo percorreu alguns setores da unidade, como a UTI que está fechada.

Segundo a promotora, o Fórum estava ali justamente para conhecer a realidade do hospital e a partir daí apresentar propostas concretas ao governo do Estado. Ela lamentou que a governadora Rosalba Ciarline até agora não tenha recebido o fórum para uma audiência solicitada desde o início do ano.

"Estamos aqui para ter uma aproximação do Fórum a uma realidade concreta dos serviços. Quando dizemos que o dinheiro não está chegando existem danos, e é importante que a gente vá às unidades de saúde para ter a real percepção das implicações dessa realidade”, destacou.

A promotora disse que “o Fórum tem uma proposta de enfrentamento coletivo ao desgoverno que nós estamos vivendo hoje no Estado”.  E destacou que “nós estamos buscando saídas para um momento de muita escuridão".

A presidente da Comissão de Direito à Saúde da OAB/RN, Elisângela Fernandes, destacou a importância dos relatos dos médicos, enfermeiros e pessoal administrativo. Segundo ela, é compartilhando as necessidades do hospital com o fórum que será possível buscar soluções e mudanças.

A promotora da Saúde, Iara Pinheiro, destacou que o combate à ineficiência se faz com transparência e que fórum surgiu da impotência da Promotoria mediante o descaso do Estado. E convidou a todos a colaborarem com o fórum.

“Todos estão convidados a participarem do Fórum de Saúde que se reúne toda semana. Nossa próxima visita será na Secretária de Saúde Estadual, dia 05, às 9h, para acompanhar reunião do Comitê Estadual de Mortalidade Materna”, disse.

Participaram da visita também representantes a conselheira federal da OAB/RN Elke Cunha e os membros da Comissão de Direito à Saúde,  Denilson Rodrigues e Leila Moura.

A presidente da Comissão de Direito à Saúde da OAB/RN, Elisângela Fernandes, destacou a importância dos relatos dos médicos, enfermeiros e pessoal administrativo. Segundo ela, é compartilhando as necessidades do hospital com o fórum que será possível buscar soluções e mudanças.

O Fórum de Saúde é composto por membros do Ministério Público, OAB/RN, Conselhos Regionais de Medicina, Odontologia, Enfermagem, Farmácia e outros, além do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e dos Conselhos Estadual e Municipal de Saúde, SINDSAÚDE e outras entidades civis.

SITUAÇÃO DO GISELDA TRIGUEIRO

A diretora Geral do Hospital, Milena Maria Costa Martins, em oficio enviado no dia 23 de maio, comunicou a promotora Iara Maria Pinheiro de Albuquerque, da Promotoria de Defesa dos Direitos da Saúde (PROSUS), que no dia 18 de maio “ocorreu um grave problema na rede elétrica interna” da unidade. Segundo ela, oscilação da tensão ocasionou pane em diversos aparelhos, queimando 20 bombas de infusão, duas máquinas de hemodiálise e dois respiradores, entre outros.

Diante do risco de curto circuito, incêndio e pane em todos os aparelhos da UTI, a direção do hospital tomou a decisão interditar a Unidade de Terapia Intensiva visando preservar a vida dos pacientes e até mesmo dos servidores. A direção pensou até em transferir os doentes para outras unidades do HGT, mas o problema elétrico foi detectado em todos os setores do hospital. Os doentes foram então transferidos para o Hospital Dr. Ruy Pereira.

Segundo Milena no oficio, a UTI há muito tempo vinha funcionando em condições precárias, com problemas nas redes elétrica e hidráulica. Por diversas vezes, a direção do hospital encaminhou solicitação de reforma para a Secretaria de Saúde, mas nada foi feito.

A diretora também denunciou à Promotoria de Saúde que o almoxarifado do hospital também está interditado devido as condições de estrutura física.

Ela relatou ainda que já foi solicitado uma reunião com a secretaria de Infraestrutura para expor as dificuldades do hospital e a necessidade da realização em caráter de urgência de reparos nas redes elétrica e hidráulica, reforma da UTI e conclusão da reforma do SAE/Hospital Dia.

Segundo Milena, esta reforma se arrasta há três anos, sendo que há mais de um ano os trabalhos estão parados.

“É extremamente difícil, desgastante e desestimulante administrar um hospital em condições tão precárias, com o agravante ainda do desabastecimento e da falta de orçamento para material permanente”, desabafou a diretora no oficio também enviado para os Conselhos Regionais de Medicina e Enfermagem.

Um funcionário do setor de raio X denunciou que falta proteção adequada de EPI para o pessoal que trabalha na sala. “Não existe aqueles coletes de chumbo e proteção para o pescoço”, denunciou o servidor.

Os níveis de infecção hospitalar no Giselda estão acima de 50%, denuncia a responsável pelo setor de controle. Segundo ela, em 20 anos de hospital, nunca viu um indicador assim.

Os servidores do Giselda denunciaram que são constantes os pedidos de ajuda aos laboratórios particulares para amenizar a angústia diária de não ter como diagnosticar as patologias. Segundo eles, o hospital vive o caos e o governo do Estado não toma as providencias para resolver os problemas porque deseja a privatização da rede hospitalar.

“Com o caos na rede hospitalar, fica mais fácil colocar a culpa nos servidores e justificar depois para a população que a privatização dos serviços é necessária”, afirmou uma servidora que acrescentou que o hospital só não fechou porque os funcionários não deixaram.

Os médicos e servidores do HGT estão em greve ha dois meses por reajuste salarial e melhores condições de trabalho.

O hospital, segundo um tenente do setor de Engenharia dos Bombeiros, chamado para ver as condições das instalações em termos de prevenção a incêndios, relatou aos integrantes do Fórum que a unidade não possui alvará de habite-se e se fosse um hospital privado, já teria sido interditado por falta de equipamentos de segurança. Não existe extintores de incêndio no hospital.

Hospital de Referência

Localizado no bairro das Quintas, o hospital foi construído em 1943 e oferece urgência e emergência com atendimento 24 horas em doenças infecciosas para adultos e crianças, profilaxia anti-rábica, antitetânica e antipeçonhenta. Também presta atendimento ambulatorial especializado em infectologia, doenças de chagas, tuberculose, hepatites, hanseníase e AIDS. Tem 161 leitos.

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Comentários

  • Jailton de Souza

    É uma pena ler esse tipo noticia, e é com muita indignação também pôs sou paciente do CRT em são paulo, e tenho muita vontade de voltar pro meu estado RN,mais diante de noticias como essa fico mais entristecido por não poder voltar a morar na minha terra querida, a não ser que abra mão da minha vida, fazendo então uma opção suicida, minha solidariedade aos meus conterrâneos, pacientes e profissionais, vitimas da incompetência e da falta de caráter dos governantes locais, digo locais porque em são paulo onde moro a 25 anos, sou muito bem tratado como paciente que convive com HIV AIDS.

    26/05/2014 04:58

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