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Quarta-feira, 12 de janeiro de 2011 às 15:04:00

Quem disse que cientista não se diverte, não dança forró?

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Um dos maiores cientistas brasileiros e um dos 20 maiores pesquisadores do mundo na área de neurociências, o paulista Miguel Nicolelis, 49 anos, na quinta-feira, 6 de janeiro, deixou os laboratórios de lado e foi se divertir no Forró com Turista no Centro de Turismo de Natal, acompanhado de suas amigas gaúchas, a neuropediatra Juliana e a cirurgiã-dentista Fernanda.

Um dia antes, quarta-feira, 5, Nicolelis foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano.

Na capital potiguar para acompanhar os trabalhos do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINNA), Nicolelis e as irmãs, Juliana e Fernanda, de férias, dançaram muito forró. O cientista chegou a dançar até quadrilha junina.

O cientista Miguel Nicolelis divide o seu tempo hoje entre São Paulo, Durham, na Carolina do Norte (EUA), e Natal.

Em São Paulo, Nicolelis comanda a Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP) e o Laboratório de Neurociência Prof. Cesar Timo-Iariam, no Hospital Sírio Libanês.

Na Carolina do Norte, ele chefia o laboratório de neurociência da Universidade Duke, um dos mais avançados do mundo.

Nicolelis é um pesquisador brasileiro mais influente do planeta, com o seu nome aparecendo entre as 20 maiores personalidades mais importantes para o avanço tecnológico na sua especialidade, a neurobiologia, segundo a conceituada revista Scientific American.

No Rio Grande do Norte, o cientista em 2003 criou o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, com sede em Macaíba, na grande Natal.

O instituto é um centro de referência mundial de pesquisa biomédica e educação científica.

Na pesquisa científica, o cientista brasileiro liderou o grupo de pesquisadores que registrou pela primeira vez a atividade simultânea de 700 neurônios.

A sua fama veio com pesquisas com macacos que controlavam com o cérebro braços robóticos e atualmente ele desenvolve estudos considerados revolucionários, como a ligação subterrânea de diversos males. O mal de Parkison com a esquizofrenia, por exemplo.

Nicolelis faz ainda outros estudos, como o novo princípio da fisiologia, onde nenhum neurônio é especializado o suficiente para agir sozinho.

O Instituto Internacional de Neurociência de Natal se chama Edmundo e Lily Safra numa homenagem ao casal do banco Safra que fez a doação de R$ 3 milhões para a entidade se instalar na capital potiguar.

Além de entidades privadas, o instituto tem parcerias com instituições públicas, como os Ministérios de Ciência e Tecnologia e da Educação e Cultura.

O IINN nesses quase oito anos de existência já captou cerca de R$ 100 milhões em doações.

A intenção do cientista com o instituto é criar a “Cidade do Cérebro” na região de Natal, atraindo pesquisadores e formando novos pesquisadores. Para isso, calcula-se que o IINN ainda precise atrair mais de um R$ 1 bilhão em investimentos para torná-lo um centro de pesquisa com uma estrutura que produza resultados científicos, cultural, social e econômico.

Em entrevista ao jornal Tribuna do Norte, de Natal, o cientista declarou que estava decepcionado com pela falta de apoio de vários segmentos do Estado, como o governo Estadual e a prefeitura, além de políticos e da sociedade em geral.

Desde que implantou o IINN há oito anos, ele afirmou que não recebeu o apoio devido das autoridades.

Para o neurocientista, a força do pensamento pode superar as barreiras geográficas e a prova disso foi a instalação do instituto no Rio Grande do Norte, fora dos grandes centros como Rio e São Paulo.

Em junho do ano passado, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) assinou a ordem de serviço para inicio das obras dos dois primeiros prédios do IINN em Macaíba, onde vai funcionar a “Cidade do Cérebro”, no valor de R$ 32 milhões. Os recursos são do Ministério da Educação.

“Vamos ter um instituto de pesquisas e uma escola de ensino regular funcionando nesses prédios”, disse ele em entrevista para a Tribuna do Norte.

Para Nicolelis, a “Cidade do Cérebro” é hoje o maior projeto científico do Brasil. “Com certeza, o de maior repercussão fora do país, tanto que conseguimos doações inéditas”, disse ele, lamentando que nem o Estado nem o município têm idéia do que este projeto pode ser um agente transformador da econômica local.

Entrevista de Nicolelis ao jornal O Estado de São Paulo

Miguel Nicolelis é um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio. Pioneiro nos estudos sobre interface cérebro-máquina, suas descobertas aparecem na lista das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada em 2001 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês).

Em 2009, tornou-se o primeiro brasileiro a merecer uma capa da Science. Na quarta-feira, dia 5 de janeiro, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano.

Ao Estado, Nicolelis falou sobre o impacto da neurociência no futuro da humanidade. Criticou de forma contundente a gestão científica no País, especialmente em São Paulo. Também questionou os critérios - marcadamente políticos - que teriam norteado a escolha do ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante.

O que as interfaces cérebro-máquina devem proporcionar no futuro?

No curto prazo, penso que as principais aplicações serão na medicina, com novos métodos de reabilitação neurológica, para tratar condições como paralisia. No médio, chegarão às aplicações computacionais. Não usaremos mais teclados, monitores, mouse... o computador convencional deixará de existir. Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos diretamente com eles. No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação no mundo. Nossa mente poderá atuar com máquinas que estão à distância e operar dispositivos de proporções nanométricas ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células para corrigir um defeito. E, no longuíssimo prazo, a evolução humana vai se acelerar. Nosso cérebro roubará um pouco o controle que os genes têm hoje sobre a evolução. Daqui a três meses, publicarei um livro em que comento esses temas.

O que o sr. chama de curto, médio, longo e longuíssimo prazo?

Curto prazo são os próximos anos. Médio prazo, as próximas duas décadas. Longo prazo, o próximo século. Longuíssimo prazo, milhares de anos.

Como andam suas linhas de pesquisa na medicina?

Estamos avançando rapidamente no exoesqueleto (um dispositivo que dá sustentação ao corpo de uma pessoa paralisada e é capaz de se mover obedecendo ao controle da mente). Outra linha de pesquisa importante é Parkinson. Publicamos um artigo na Science no ano passado. Estimulamos com eletricidade a medula espinhal de ratos com uma doença semelhante ao Parkinson e conseguimos reverter o congelamento motor característico da doença.

Ainda precisaremos dos sentidos para dialogar com sistemas computacionais?

Vamos publicar um trabalho em breve descrevendo o envio do sinal de uma máquina diretamente ao tecido neural de um animal, sem mediação dos sentidos: na prática, criamos um sexto sentido. Vai ser uma novidade explosiva, mas não posso dar mais detalhes, pois o artigo ainda não foi publicado. Mas posso afirmar que a internet como conhecemos hoje vai desaparecer. Teremos uma verdadeira rede cerebral. A comunicação não será mediada pela linguagem, que deixará de ser o único ou o principal canal de comunicação.

Quais as implicações antropológicas e sociológicas no longo prazo?

Costumo dizer que será a verdadeira libertação da mente do corpo, porque será a mente que determinará nosso alcance e potencial de ação na natureza. O que definimos como ser mudará drasticamente no próximo século.

O que o sr. acha da política científica brasileira?

Está ultrapassada. Principalmente a gestão científica. Foi por isso que eu escrevi o Manifesto da Ciência Tropical (mais informações nesta página). O talento humano é sufocado por normas absurdas nas universidades. Devemos ter uma carreira para pesquisadores em tempo integral e oferecer suporte administrativo profissional aos cientistas. Mas aqui no Brasil há a cultura de que, subindo na carreira científica, o último passo de glória é virar um administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Uma tragédia.

O sr. afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada.

Sem dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira. Há bem pouco tempo, a ciência ainda era uma atividade da aristocracia brasileira.

Como o sr. se vê na Academia?

Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado. Ninguém chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos bastidores, é inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em Natal nos últimos oito anos. Em 2010, na avaliação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), tivemos um dos melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E nosso orçamento foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões. Recebemos R$ 1,5 milhão. As pessoas têm medo de abrir a boca, pois você é engolido pelos pares.

Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no País?

Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda para conseguir dinheiro, porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia para conseguir dinheiro e sobressair. Cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque não preenche todos os pré-requisitos - número de orientandos de mestrado, de doutorado... Se Einstein não poderia estar no topo, há algo errado. Até agora, ninguém teve coragem de enfrentar o establishment da ciência brasileira. Minhas críticas não são pessoais. Quero que o Brasil seja uma potência científica para o bem da humanidade. As pessoas precisam ver que a juventude científica está de mãos atadas. Devemos libertar esse povo.

O sr. tem uma opinião bastante crítica sobre a política científica no País. Mas, na eleição, manifestou apoio público a Dilma. Por quê?

Porque a outra opção era trágica. Basta olhar para o Estado de São Paulo: para a educação, a saúde e as universidades públicas. Eu adoro a USP, onde me formei. Mas a liderança que temos hoje na USP é terrível. A Fapesp é uma joia, um ícone nacional, reconhecida no mundo inteiro. Mas isso não quer dizer que as últimas administrações foram boas. Temos de ser críticos. Esta última administração, em especial, foi muito ruim. A Fapesp está perdendo importância. Veja só: a Science (no artigo publicado há algumas semanas sobre a ciência no Brasil) não dedicou uma linha à Fapesp.

Como o sr. avalia o governo Lula?

Apoiei e apoio incondicionalmente o presidente Lula, porque vivemos hoje o melhor momento da história do País. A proposta global de inclusão do governo Lula - e espero que será a mesma com a Dilma - é aquela em que eu acredito. Contudo, detalhes devem ser corrigidos. Admiro o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende. Tivemos grandes avanços com a criação dos INCTs e dos fundos setoriais. Mas o ministro não enfrentou a estrutura. Em oito anos, nunca fui chamado para dar uma opinião no ministério ou para apresentar os resultados do projeto de Natal. Sei que outros cientistas, melhores que eu, também não foram chamados. Mas fui chamado pelo Ministério da Educação. O ministro (Fernando Haddad) é o melhor que já tivemos.

O que o sr. achou da escolha de Aloizio Mercadante para o MCT?

Estou curioso para saber qual é o currículo dele para gestão científica. Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não tenho a mínima ideia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a ciência brasileira um ministério tão importante virar prêmio de consolação para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas talvez seja bom que o futuro ministro não seja um cientista de bancada, alguém ligado à comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação política, poderá quebrar os vícios.

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